Vítimas de `nudes` criadas com IA mudam de escola para escapar ao `bullying`
Adolescentes vítimas de `nudes` criados por colegas com Inteligência Artificial (IA) e partilhados nas redes sociais estão a mudar de escola para escapar ao `bullying`, lamentou a Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV).
"Vai haver uma tendência para [a vítima] querer deixar de ir à escola, se estivermos a falar de crianças. Muitas vezes, os pais simplesmente escolhem mudar, quando têm essa possibilidade", disse à Lusa a gestora operacional da Linha Internet Segura, gerida pela APAV.
"É muito difícil, (...) quando estamos a prestar apoio psicológico, quando ativamos o sistema, (constatar) que mesmo assim é essa pessoa que vai ter de mudar de escola", desabafou Carolina Soares, admitindo que é muito difícil a sociedade garantir a proteção dessas crianças.
De acordo com a Polícia Judiciária (PJ), os adolescentes estão a criar e distribuir nas redes sociais imagens de colegas nuas (`nudes`) produzidas com IA, algo que consideram uma brincadeira, mas que constitui crime e já originou condenações em tribunal, sendo a maioria das vítimas, segundo a APAV, raparigas.
"A partir do momento em que aquela imagem começa a circular, a violência exercida sobre a vítima é uma violência 24 horas por dia", lembrou Carolina Soares, precisando que é comum estas terem "uma sensação de perseguição, de ausência de controlo, de uma intimidade que é violada", mesmo tratando-se de uma imagem falsa, uma vez que, embora o corpo não seja real, o rosto é.
Problemas de sono, distúrbios na alimentação e diminuição do desempenho escolar são outras das consequências para as adolescentes, com a forma "como veem o corpo, a sua sexualidade" e a "confiança no outro" a serem também afetadas.
Denunciar o caso a um órgão de polícia criminal é outra das dificuldades sentidas pelas vítimas, por terem de falar sobre o assunto "com uma pessoa estranha ou encarar um sistema (...) muito burocrático, que tem uma linguagem muito pesada" e que "é moroso".
Para o agressor, a decisão demora dois segundos, mas para a vítima, neste caso uma vítima criança, afeta "o seu crescimento e a forma como se vai encarar mesmo quando for uma pessoa adulta", frisou a gestora operacional da Linha Internet Segura.
Carolina Soares defende, por isso, uma aposta, além da prevenção, no trabalho "pelo menos desde o pré-escolar" do consentimento, da empatia e da responsabilização.
"Todos estes são essenciais" para que o jovem que está a ponderar fazer um `nude` com IA não pense `é só uma brincadeira, não há aqui qualquer problema`".
Para a PJ, é também "importante estimular o pensamento crítico digital" das crianças e jovens, "por forma a promover o uso racional da tecnologia", recomendando a instituição "que se tomem as devidas precauções para manter os perfis privados e, preferencialmente, apenas aceitar amigos virtuais que já se conhecem no mundo real".
Entre as linhas de apoio disponíveis para quem sofra com esta forma de `bullying`, estão a Linha Internet Segura (800219090 ou linhainternetsegura@apav.pt) e a SOS Criança e Jovem, gerida pelo Instituto de Apoio à Criança, disponível através do 116 111 ou, no WhatsApp, do 913069404.
Para denúncias às autoridades, "o ideal é deslocar-se ao posto policial mais próximo e denunciar, preservando sempre os conteúdos que indiciam o crime, nomeadamente as imagens, gravações, vídeos e conversas", aconselha o chefe da Repartição de Policiamento Comunitário da GNR, Sérgio Fonseca, que tem sob sua alçada o programa "Escola Segura".
A existência de um diálogo aberto entre os adolescentes e os pais ou outros adultos próximos é outra das recomendações.